teologia para leigos

14 de agosto de 2012

RSI - UM ÓDIO AOS POBRES

Os pobres e os desempregados
que se lixem


(clicar para ampliar)



No primeiro trimestre de 2012 entraram na Segurança Social, em média, 12 mil processos de RSI por mês. Em 2011 esse valor situou-se em cerca de 8 mil processos mensais e, no último trimestre desse ano, em 9 mil. Nada que surpreenda: por um lado, as «políticas activas de desemprego» levadas a cabo pela actual maioria PSD/PP geraram, em apenas um ano, 140 mil novos desempregados; por outro, com a degradação das condições de acesso ao subsídio de desemprego (em prazos e montantes), o número de desempregados que perderam o direito a esta prestação aumentou sem cessar (de cerca de 404 mil para 473 mil entre Junho de 2011 e Junho de 2012). Sendo mais do que previsível, o acréscimo de processos de RSI entrados não se traduziu, contudo, num aumento proporcional do número de beneficiários desta prestação (apenas cerca de mais 15 mil, no mesmo período). Comprometido com cortes substanciais nas despesas sociais, Pedro Mota Soares viu-se pois a braços com a necessidade de conter os encargos orçamentais com o RSI, prestação a que a direita dedica um ódio particular.

Em vez de reconhecer o que seria expectável, para quem defende a (clicar AQUI) «ética social na austeridade», isto é, o reforço financeiro da medida dado o aumento de cidadãos em situação económica que os deveria tornar elegíveis para a receber, Pedro Mota Soares decide fazer o contrário: aperta ainda mais as regras de acesso e fiscalização da prestação, esforçando-se assim - tanto quanto pode - para manter a imagem (e o estigma) de que o RSI é um puro «subsídio à preguiça» e fonte inesgotável de «fraudes e abusos». Os dados, porém, desmentem sistematicamente esta (clicar AQUI) « deliberada mistificação » .

Se olharmos para o relatório mais recente da CNRSI, de Junho de 2011 (isto é, anterior ao reforço do cerco persecutório e populista montado aos beneficiários do RSI pelo actual governo), verificamos que dos 642 mil processos entrados e avaliados no primeiro semestre de 2011, cerca de 40% foram indeferidos ou arquivados (o que demonstra que o crivo é, logo à partida, muito relevante).

Mas mais interessante ainda é constatar os motivos de cessação da prestação no mesmo período:

- a maior parte ocorre por alteração dos rendimentos (52%) e restrição dos critérios de acesso (12%), representando as situações de provável «fraude e abuso» (incumprimento do programa de inserção, falsas declarações, falta à convocatória do IEFP, recusa do plano pessoal de emprego ou posse de património mobiliário superior ao limite) apenas 10% do total de processos cessados (clicar no gráfico para ampliar).







Não, nem o RSI é um alfobre de «fraudes e abusos» nem o governo se pauta por qualquer espécie de «ética social na austeridade».

Mas sim, e apenas, por uma repugnante e inesgotável miséria moral.
Adenda: Se ponderarmos o número médio mensal de cessações fundamentadas em casos de «fraude e abuso» (incumprimento do programa de inserção, falsas declarações, falta à convocatória do IEFP, recusa do plano pessoal de emprego ou posse de património mobiliário superior ao limite) pela média mensal de famílias beneficiárias de RSI no primeiro semestre de 2011, constatamos que o peso percentual das referidas «fraudes e abusos» se restringe a uns residuais 3% (o que desautoriza - de forma inequívoca - a sanha persecutória do ministro Mota Soares).

Nuno Serra
Ladrões de Bicicletas, blog
09:VIII:2912




GOVERNO PSD-CDS/PP:

«O Governo tem como objectivo "manter uma ética social na austeridade" e isso implica, segundo o ministro da Solidariedade, "tomar um conjunto de medidas como o aumento das pensões mínimas, sociais e rurais que está previsto que aconteça no próximo ano, ao contrário do que aconteceu no passado", contemplando cerca de um milhão de portugueses.» [17:X:2011, Pedro Mota Soares, “I Convenção Anual da Plataforma Europeia Contra a Pobreza e a Exclusão Social”, EU, Cracóvia]


Papa JOÃO PAULO II:

Laborem Exercens (1981), nº 12: prioridade do trabalho sobre o capital.

Liberdade cristã e libertação – Instrução da Congregação da Doutrina da Fé (1986):

«(…) a solução para a maior parte dos gravíssimos problemas da miséria encontra-se na promoção duma verdadeira civilização do trabalho. De certa maneira, o trabalho é a chave de toda a questão social». «a relação entre a pessoa humana e o trabalho é radical e vital» (nº 83).

«(…) todo o homem tem direito a um trabalho que deve ser reconhecido na prática por um esforço efectivo que vise resolver o dramático problema do desemprego. O facto de este manter numa situação de marginalidade amplos sectores da população e principalmente da juventude é algo intolerável. Por isso, a criação de postos de trabalho é uma tarefa social primordial que deve dizer respeito aos indivíduos, à iniciativa privada e igualmente ao Estado (…)». (nº 85)

 “Centesimus annus” (1991), c. 5:

“Os mecanismos do mercado (…) são portadores do risco da «idolatria» do mercado, já que ignoram a existência de bens que, pela sua natureza, não são nem podem ser simples mercadorias”. (nº 40)
“A primeira incumbência do Estado é (…) que quem trabalha e produz possa gozar dos frutos do seu trabalho (…). O Estado tem o dever de secundar a actividade das empresas criando condições que assegurem oportunidades de trabalho, estimulando onde elas sejam insuficientes ou sustentando-as em momentos de crise.” (nº 48)

Aos Bispos do Peru (Roma, 1984):

“(…) conheceis sem dúvida de perto a tragédia do homem concreto do campo e das cidades(…). Quanto mais dura é a situação mais inadmissíveis são as atitudes dos sistemas que se inspiram em princípios de pura utilidade económica para benefício de sectores privilegiados”. (…) “É por isso necessário que todos os pastores da Igreja do Peru (…) trabalhem seriamente (…) na causa da justiça e da defesa do pobre” (…) “a Igreja quer manter a sua opção preferencial por estes”.


Na Missa, em Santo Domingo (Peru, 1984):

Deus “é o Deus de todos, contudo outorga a sua misericórdia inicial aos deserdados deste mundo”. (nº 5)


AMARTYA SEN:

«Há aqui seguramente lições a tirar de John Maynard Keynes, que compreendeu que o Estado e o mercado são interdependentes. Mas Keynes tinha pouco a dizer sobre justiça social, incluindo os compromissos políticos com que a Europa emergiu depois da Segunda Grande Guerra. Foi isso que conduziu ao nascimento do moderno Estado Providência e dos sistemas nacionais de saúde - não para sustentar uma economia de mercado, mas sim para proteger o bem-estar humano.

Embora Keynes não se tivesse envolvido profundamente com estas questões sociais há, na Economia, uma velha tradição, a que combina mercados eficientes com provisão pública de serviços que o mercado não é capaz de assegurar.

Como Adam Smith (tantas vezes simplisticamente encarado como o primeiro guru da livre economia de mercado) escreveu, na «Riqueza das Nações», há «dois objectos distintos» numa economia:

a)   «primeiro, garantir recursos abundantes ou de subsistência para as pessoas, isto é, mais precisamente, que lhes permitam assegurar um rendimento ou uma forma de subsistência para elas próprias;
b)  e, em segundo lugar, dotar o Estado ou a comunidade com uma receita suficiente para serviços públicos.»

Nuno Serra, in: «A ESTANTE DOS PASSOS PERDIDOS»